Bolo Rei

É comum, logo no início de Dezembro, ver-se nas montras das pastelarias um dos doces mais tradicionais da quadra natalícia: o bolo-rei.

As origens deste doce perderam-se ao longo do tempo mas, existem ligações à época pré-cristã em que era usado nos rituais ao deus Saturno dos antigos romanos. Era costume entre este povo, trocar presentes, sendo os mais habituais frutos secos, cada um com o seu significado. Com a cristianização, o bolo-rei é associado aos três reis Magos, significando as oferendas destes a Jesus: a côdea representa o ouro, o aroma o incenso e os frutos a mirra. Existem várias lendas sobre a tradição da fava no bolo-rei. Uma delas conta que os reis Magos, ao seguir a estrela a caminho de Belém, disputavam a honra de entregar em primeiro lugar a sua oferenda. Um padeiro, a fim de resolver esta disputa, confeccionou um bolo, escondendo uma fava. O rei Mago que escolhesse a fatia com a fava, seria o primeiro a entregar a prenda. Com o decorrer dos tempos, a tradição fez com que a fava trouxesse o azar a quem a encontrasse, tendo de pagar o bolo-rei no ano seguinte. Já o brinde, um pequeno objecto de metal, significa sorte. A tradição já não é o que era, pois nos últimos anos, este quase desapareceu por exigências legais devido ao eventual perigo de ingestão, sendo contudo o seu uso permitido se tiver uma dimensão mínima de quatro centímetros de comprimento. O bolo-rei popularizou-se em França (gâteau des rois) para homenagear Luís XIV. Contudo, após a Revolução Francesa este bolo chegou mesmo a mudar de nome. Para o nosso país, foi trazido de Paris, nos finais do século XIX, pelo filho de Balthasar Rodrigues Castanheiro, fundador da Confeitaria Nacional em 1829, uma das mais antigas e prestigiadas doçarias na baixa lisboeta. Aqui começou a ser confeccionado apenas na véspera do Dia de Reis, mas tal foi o sucesso, que o seu consumo se estendeu a toda a quadra natalícia e não só. E, em Portugal, após a proclamação da República, também houve tentativas de mudar o nome para “bolo Presidente” ou “bolo-Arriaga”, mas nenhum pegou…

De acordo com as receitas tradicionais, o bolo-rei é elaborado com farinha, fermento de padeiro, margarina, açúcar, fruta cristalizada, frutos secos (nozes, amêndoas, pinhões, passas de uva), ovos, raspa de limão e de laranja, vinho do Porto e sal. Do ponto de vista nutricional, é um bolo que apresenta um elevado teor calórico e cujos ingredientes mais importantes são, sem dúvida, os frutos secos. Estes são ricos em vitaminas, minerais e fitoquímicos. Salienta-se que os lípidos (50 a 60%) que os compõem são maioritariamente ácidos gordos insaturados (ómega-3 e ómega-6), benéficos à nossa saúde, nomeadamente na prevenção das doenças cardiovasculares. Não possuem colesterol, ao mesmo tempo que ajudam na redução do colesterol total e do colesterol LDL. Os frutos secos são ricos em fibras vegetais que beneficiam o trânsito intestinal e ajudam a reduzir a sensação de saciedade. A vitamina E (antioxidante) presente nos frutos secos combate os efeitos nocivos originados pelos radicais livres, evitando o envelhecimento precoce, ajudando na prevenção das doenças cardiovasculares e da arteriosclerose.

O consumo deste bolo típico nem sempre é aconselhável devido aos excessos da época e, principalmente, porque a maior parte dos fabricantes não segue as receitas mais tradicionais devido aos custos mais elevados de determinados ingredientes (por exemplo os pinhões), acabando por lhes acrescentar outros (como o coco, o caju ou o amendoim) ou simplesmente reduzir a quantidade e qualidade dos frutos secos, alterando o seu verdadeiro valor. Também as frutas cristalizadas utilizadas actualmente possuem muitos corantes e conservantes. Para algumas pessoas, devido ao facto de ser confeccionado com fermento do padeiro, provoca flatulência.

Porém, se é apreciador, escolha um bolo-rei de qualidade e não o ingira em excesso pois é muito calórico. Para os diabéticos existem variações, confeccionadas com frutose e farinha integral. Evite comer as frutas cristalizadas que se encontram na cobertura devido ao açúcar e aos aditivos. Aliás, o bolo-rei, quando comparado com outras iguarias de Natal, na sua maioria fritos (filhós, rabanadas, sonhos, etc.) é mais saudável. O segredo reside na moderação.

Pedro Lôbo do Vale
Médico