Um novo estudo sugere que uma mudança na composição microbial do intestino poderá explicar o aumento crescente de doenças crónicas e até obesidade em crianças dos países desenvolvidos.
Sabe-se que uma dieta rica em gorduras, açúcar e proteínas e com baixos teores de fibras tem sido associada ao aumento da incidência de doenças no aparelho digestivo em todo o mundo e também que a composição da flora intestinal depende de diferentes hábitos alimentares tal como a nossa saúde depende do metabolismo de vários microrganismos. No entanto, a relação da composição da flora intestinal com diferentes dietas na população humana ainda não foi estudada.
De forma a melhor compreender este fenómeno, investigadores da universidade de Florença analisaram as diferenças a nível da flora fecal entre 14 crianças saudáveis de uma região rural de África (Burkina Faso) e 15 crianças saudáveis de uma zona citadina de Itália, com o objectivo de explicar o papel da flora intestinal na incidência de algumas doenças.
As crianças de Burkina Faso têm uma dieta rica em amido, fibras, vegetais ricos em polissacáridos mas pobre em gorduras e proteínas animais. Esta dieta é similar à praticada pelos humanos nos primórdios da agricultura.
A dieta das crianças italianas envolvidas neste estudo foi a típica dos países desenvolvidos, rica em proteínas animais, açúcar, amido, gordura e pobre em fibras.
Comparadas a flora intestinal nas duas populações de crianças, verificaram diferenças significativas nas mesmas logo após o fim do período de amamentação.
Os autores deste estudo mencionaram que os seus resultados “sugerem que a dieta tem um papel dominante na composição da flora intestinal comparativamente a outras variáveis como etnicidade, saneamento, higiene, geografia ou clima.”
Foi ainda mencionado que o consumo de açúcar, gordura animal e alimentos altamente calóricos nos países industrializados é limitativo do potencial adaptativo da flora intestinal.
A dieta das crianças de Burkina Faso, baseada em milho painço, sorgo, ervilhas de olho preto e vegetais corresponde, aproximadamente, à ingestão do dobro das fibras em relação às crianças europeias.
Tendo a composição da flora intestinal no mundo ocidental já sido anteriormente relacionada com o risco de obesidade, sendo até considerada um bom bio marcador da obesidade, os autores deste estudo lançaram a hipótese de que a dieta rica em polissacáridos, como a verificada nas crianças de Burkina Faso, permite maximizar a ingestão de fibras enquanto protege o intestino de doenças.
A menor riqueza da flora intestinal verificada nas crianças europeias é possivelmente um dos efeitos indesejáveis da globalização e da ingestão de alimentos genéricos ricos em nutrientes, mas estéreis. Apesar da relação entre as alterações na flora intestinal e a saúde dever ser melhor estudada, esta investigação poderá ser útil para o desenvolvimento de novos produtos probióticos assentes na composição de uma flora intestinal mais saudável e diversificada como a das crianças de zonas rurais de África.
Já que a nossa dieta muito se afastou da praticada nos primórdios da agricultura, uma dieta equilibrada aliada à toma de suplementos alimentares probioticos e fibras, contribuirá certamente para uma flora intestinal mais saudável e diversificada.
Fonte:
Impact of diet in Shaping gut microbiota revealed by a comparative study in children from Europe and rural Africa.
Carlotta de Filippo, Duccio Cavalieri, Monica di Paola, Matteo Ramazzotti, Jean Baptiste Poullet, Sebastian Massart, Silvia Collini, Giuseppe Pieraccini and Paolo Lionetti
in Proceedings of the Natural Academy of the United States of America.
http://www.pnas.org/content/early/2010/07/14/1005963107.full.pdf+html?sid=3aabec4c-1009-41c7-8211-d3dd7d7c59e0
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