As intolerâncias alimentares são uma reacção adversa do organismo a alimentos causadas por mecanismos não imunológicos.
Os sintomas provocados podem incluir distúrbios gastrointestinais, cutâneos e respiratórios e podem confundir-se com os sintomas das alergias alimentares. Contudo, intolerância alimentar e alergia alimentar são processos diferentes, sendo necessário um diagnóstico e um tratamento diferencial entre os dois, dependendo do mecanismo envolvido.
Na origem da intolerância alimentar, poderão estar alguns hidratos de carbono presentes nos alimentos, quando o organismo sofre de uma deficiência ou diminuição da actividade enzimática, que impede a sua metabolização eficaz. Podem ocorrer como:
- Defeitos raros congénitos, tais como deficiências de sacarase, isomaltase ou lactase, observadas nos recém-nascidos;
- Formas generalizadas secundárias a doenças (como acontece na doença de Crohn e na doença Celíaca), que danificam o epitélio intestinal, provocando uma redução na produção de lactase. As infecções víricas ou utilização de medicamentos também podem contribuir, para a danificação do epitélio intestinal e consequente baixa de produção enzimática.
- Forma geneticamente adquirida (deficiência de lactase), a mais comum, que usualmente aparece após a infância, mas pode aparecer até aos 2 anos de idade. Há redução da produção de lactase com o avançar da idade.
Intolerância à Lactose
A lactose, açúcar naturalmente presente no leite, quando ingerida numa quantidade superior àquela que o organismo consegue metabolizar (cerca de 12g, quantidade encontrada em 240 ml de leite), no caso de pessoas com deficiência em lactase (enzima intestinal que digere este açúcar), pode provocar sintomas como dores abdominais, flatulência, náuseas e diarreia ácida e abundante. Isto, porque a lactose que não é digerida e permanece no intestino e actua osmoticamente, atraindo água. As bactérias intestinais fermentam a lactose não digerida, gerando ácidos gordos de cadeia curta, dióxido de carbono e hidrogénio, que propiciam os sintomas descritos.
Estima-se que cerca de 70% dos adultos do mundo sejam incapazes de digerir a lactose. A maioria das pessoas intolerantes à lactose é capaz de digerir o leite apenas em quantidades pequenas e moderadas.
Como ultrapassar este problema?
- É possível substituir a ingestão de leite e seus derivados por leite sem lactose ou por outros géneros alimentícios, aos quais a lactose tenha sido removida.
- Uma outra opção, até mais saudável, por fornecer proteínas de origem vegetal, gorduras polinsaturadas, naturalmente isentas de colesterol e isoflavonas, consiste em optar por bebidas de soja e produtos à base de soja.
- Outras deficiências enzimáticas, na base de intolerâncias alimentares são os erros congénitos do metabolismo, que propiciam a ocorrência da galactosemia, fenilcetonuria e favismo.
Galactosemia
Na galactosemia existe uma incapacidade de metabolizar a galactose (açúcar naturalmente presente no leite materno e um dos açúcares constituintes do dissacarídeo lactose), devido à deficiência da enzima galactose-1-fosfato, que desdobra a galactose em moléculas de glicose. Neste caso, o tratamento deverá passar pela suspensão do aleitamento e o bebé deverá seguir uma dieta sem galactose ou lactose. Assim, o leite de vaca deve também ser rejeitado e encorajada a ingestão de bebida de soja ou de arroz.
Fenilcetonuria
Na fenilcetonuria, existe um defeito, ou mesmo ausência, da enzima fenilalanina hidroxilase hepática (PAH), que catalisa o processo de conversão do aminoácido fenilalanina em tirosina. O tratamento desta condição faz-se através de uma dieta pobre em fenilalanina, eliminando a ingestão de, por exemplo: carne, leite, ovos, feijão, milho, adoçantes que contenham aspartame, amendoins e farinha de trigo.
Favismo
O favismo consiste na intolerância ao consumo de favas, devido a uma deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase. O indivíduo portador desta deficiência enzimática deverá abster-se de ingerir favas, pois pode desenvolver uma anemia hemolítica, situação potencialmente grave.
Doença Celíaca
No caso da doença celíaca ou enteropatia sensível ao glúten, as reacções adversas do organismo manifestam-se após a ingestão de alimentos que contêm glúten. O glúten é um conjunto de proteínas, solúveis em álcool, constituinte do endosperma do grão de alguns cereais. Em pessoas com susceptibilidade genética, este constituinte danifica as vilosidades da mucosa intestinal, resultando em má absorção de praticamente todos os nutrientes. A forma que o glúten danifica o intestino delgado é desconhecida, mas parece que os componentes genético e imune estão envolvidos.
Habitualmente, esta doença surge após os 6 meses de vida, ao serem introduzidas as papas, pães e biscoitos na alimentação, mas pode surgir em qualquer idade. O diagnóstico faz-se através de análises para detecção de alterações a nível intestinal e confirmação por biopsia da mucosa. Ao diagnóstico segue-se o tratamento, que consiste em uma dieta isenta de glúten, com resultados imediatos. Durante as primeiras semanas, a dieta deve ser suplementada com vitaminas, minerais e um aporte extra de proteína, para colmatar deficiências e restabelecer os níveis óptimos de nutrientes.
Os cereais com glúten, a serem evitados por celíacos, são o trigo, a aveia, o centeio e a cevada. Os produtos elaborados à base de milho, batata, arroz, feijão de soja, tapioca, araruta, amaranto e trigo-sarraceno podem substituir a ingestão daqueles cereais. Quando se utilizam as suas farinhas, é importante ter atenção à contaminação com o glúten das farinhas de trigo, aveia, centeio ou cevada, durante a moagem. Considera-se que um produto é isento de glúten quando o seu doseamento, num género alimentício, é inferior a 20ppm.
Muitas vezes, a intolerância à lactose surge secundariamente à doença celíaca, devido ao dano causado na mucosa intestinal, onde se encontram as enzimas que digerem os açúcares. Uma dieta com pouca lactose e sem glúten poderá ser útil, no controlo dos sintomas.
Aditivos
Alguns aditivos alimentares, como conservantes (sulfitos, que poderão estar presentes em muitos alimentos processados, camarões, abacate, batatas instantâneas, frutas secas, vegetais, sumos ácidos, vinho, cerveja.), intensificadores de sabor (glutamato monossódico, que pode ser adicionado a carnes, peixes, molhos, sopas.), antioxidantes (BHA e BHT, em óleos e gorduras.) e corantes (tartrazina, presente em corantes alimentares amarelos ou alaranjados, refrigerantes, medicamentos, etc.), também podem provocar uma reacção de intolerância alimentar, no organismo. Os sintomas poderão ser vários, como urticária, eritema cutâneo, asma ou mesmo perda de consciência.
Aminas Biogénicas
Existem, também, substâncias biogénicas em alguns alimentos que, quando ingeridos em doses elevadas, podem causar sintomas de intolerância alimentar, com o surgimento de sintomas como enxaquecas, eritema, eczema, urticária, etc.
Entre essas substâncias destacamos:
- Histamina (presente no atum, arenque, salmão, chocolates, marisco, queijo, espinafres e morangos):
- Agentes libertadores de histamina (presentes nos queijos fermentados e outros alimentos fermentados, mariscos, chocolate, morangos, tomates, amendoins, carne de porco, vinho, abacaxi);
- Tiramina (presente no vinho tinto, no queijo e no peixe enlatado);
- Feniletilamina (presente em alimentos fermentados, vinho tinto, queijo e chocolate);
- Dopamina (presente nas favas e em legumes);
- Serotonina (presente nas bananas, abacaxi, espinafres e couves).
Cafeína
A cafeína, substância estimulante para o sistema nervoso, vulgarmente encontrada no café, no chá e em refrigerantes também pode originar sintomatologia de intolerância alimentar, por parte do organismo, com o aparecimento de sudorese exagerada, palpitações, tremores, dispepsia e distúrbios do sono, estando a sua privação associada a depressão e dor de cabeça.
Como contornar as intolerâncias alimentares?
- Estando atento às reacções estranhas que o seu organismo eventualmente registe, após a ingestão de determinados alimentos;
- Realizando testes imunológicos IgE específicos a 100/300 alimentos;
- Evitando os alimentos que manifestamente possam conter substâncias passíveis de provocarem intolerâncias alimentares, tais como aqueles que descrevemos;
- Através da leitura atenta dos rótulos dos géneros alimentícios e identificação de possíveis “ingredientes perigosos”;
- Estando preparado para situações de emergência (por exemplo, na doença celíaca, tendo um snack sem glúten na carteira);
- Quando necessário, seguir um tratamento farmacológico ou suplementação alimentar adequados.
Alterações Alimentares
A solução passa sobretudo por excluir a substância responsável pela intolerância, de forma que minimize a incidência e intensidade dos sintomas. Em caso de deficiência enzimática, é possível utilizar suplementos alimentares à base de enzimas para ajudar na sua digestão.
É fundamental identificar os alimentos que causam desconforto para evitar ou retirar o alimento/componente que causa a intolerância. Contudo, a exclusão de alimentos sem a devida orientação nutricional pode levar a hábitos alimentares inadequados e desequilibrados.
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