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Açafrão: o aliado natural da memória e do foco?

Bem-Estar

O açafrão (Crocus sativus L.), além da cor característica amarela que confere aos cozinhados, é, cada vez mais, uma especiaria com potencial interessante na ciência. Os estigmas dourados da flor do açafrão têm sido estudados pelo seu potencial no contexto do Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e pela possibilidade de complementar as abordagens terapêuticas existentes.

A especiaria que vale ouro

Vale a pena recordar o que torna o açafrão tão especial: cada flor de Crocus sativus produz apenas três
delicados estigmas vermelhos, são precisas cerca de 150 mil flores para obter um quilo de especiaria seca, o que faz do açafrão o alimento mais caro do mundo. É colhido à mão, ao amanhecer, precisamente no outono, entre outubro e novembro, quando as flores abrem, numa janela de poucas horas.

Nesses fios vermelhos, concentram-se os compostos responsáveis pelo interesse científico: crocina, crocetina, safranal e picrocrocina. É a estes bioativos que se atribuem os efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e neuromoduladores, que têm colocado o açafrão na ponte entre a cozinha e a neurociência.

Açafrão e TDAH: o que diz a ciência?

O metilfenidato (conhecido pela marca Ritalina) é, há décadas, o fármaco de primeira linha no TDAH, que atua sobre a dopamina e a noradrenalina, neurotransmissores envolvidos na atenção, na motivação e no controlo impulsivo. Estudos pré-clínicos sugerem que os compostos do  açafrão podem também influenciar
estas vias e exercer efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios no sistema nervoso central.

Uma equipa espanhola publicou, em 2022, no Journal of Nutrition, um ensaio clínico com 63 crianças e adolescentes com TDAH. Após seis semanas, os participantes que receberam um extrato padronizado de açafrão apresentaram melhorias semelhantes às observadas com metilfenidato, com o açafrão a destacar-se mais nos sintomas de hiperatividade, e o metilfenidato, ligeiramente melhor na desatenção, além de boa
tolerabilidade em ambos, sem aumento relevante de efeitos adversos no grupo do açafrão. Outros estudos e revisões científicas, publicados entre 2023 e 2026, continuam a apontar na mesma direção, consolidando
o açafrão (Crocus sativus) como uma das opções fitoterapêuticas mais promissoras e estudadas no contexto do TDAH.

O interesse nesta área tem também sido explorado em adultos. Um ensaio clínico randomizado, duplamente cego e controlado por placebo, avaliou o açafrão como complemento ao tratamento com metilfenidato em adultos com TDAH, tendo observado melhorias nos sintomas e um perfil de segurança favorável.

Um sinal promissor, sem perder a prudência

As evidências sobre o açafrão ainda são limitadas: os estudos são pequenos, de curta duração e diferentes metodologias, pelo que são necessários ensaios maiores, duplamente cegos e com placebo. Também é importante frisar que não se deve substituir a medicação prescrita sem supervisão médica, embora o açafrão pareça uma opção promissora, bem tolerada e potencialmente útil como complemento, sobretudo em casos ligeiros.

O humor, o sono e o stresse

O interesse pelo açafrão não se fica pelo TDAH. Vários ensaios europeus têm explorado os efeitos desta planta no humor, depressão, ansiedade, stresse e qualidade do sono.